sexta-feira, 4 de março de 2011

O Diário do Fim do Mundo - Capitulo 2

 (Domingo, 11:45 h)

Ao ver minha situação deplorável, naquela maca de hospital me sentia apenas um lixo, contando somente com a sorte, ou talvez mesmo com a piedade de Deus. Percebi que já era de manhã, o sol brilhava alto no céu, no relógio vi que já era quase meio dia, tentei levantar meu corpo doía por inteiro, era como se eu tivesse caído da escada. Estava curioso sobre a criatura que me atacou, na minha cabeça começaram a surgir lembranças dos bons e velhos filmes de “lobisomem”, realmente, parecia ser verdade, pois estava sentindo uma febre e minha cabeça não parava de doer, era como se meu corpo estivesse lutando contra algo...
Olhei para os lados e ri sozinho no quarto, que besteira, isso não existe. Bom isso não importava, eu queria saber se alguém tinha informações úteis sobre os fatos da noite anterior. E, com certeza eles deveriam ter feito exames comigo, pelo menos gostaria de saber se não peguei raiva, ou coisa do gênero.
O quarto era simplório, parecia que era todo improvisado, sem cortinas, sem aparelhos, tinha alguns materiais de limpeza no canto da sala, mas isso não era coisa para se preocupar. Ao lado da maca improvisada havia uma mezinha de cabeceira com um controle com dois botões, um escrito “chamar” e outro “cancelar”, bom pensei: “do jeito que as coisas vão isso não deve nem funcionar”. Apertei então o botão chamar pra ver, então uma luz vermelha acendeu no controle, eu dei uma leve risadinha irônica, esperei, uns cinco minutos se passaram, quando eu escutei passos no corredor, então, uma maldita sensação de ansiedade passou pelo corpo, estava curioso, quem apareceria? O que saberia sobre o incidente?
Os passos chegar até a porta, então a maçaneta girou bem devagar, parecia que a pessoa estava tentando não me acordar. Então a porta se abriu, um lindo e jovem rosto apareceu na porta, ela me olhou, sorriu e perguntou: “já esta acordado? Que bom”. Pensei em responder: “não, to dormindo sua tonta, não esta vendo?”. Porem ela era tão linda que respondi de forma carinhosa: “Já... o sol me despertou”. Ela tinha um sorriso muito bonito em seu rosto, cabelos escuros e muito compridos, sua pele era bem clara, aparentava ter uns 22 anos no máximo, no seu crachá estava escrito: “Ane Lima”, então eu disse a ela: “Ane... seu nome é tão lindo como seu sorriso”, ela ficou levemente vermelha, mas deu um sorrisinho e falou: “Ei, você esta muito assanhadinho pra quem se machucou desse jeito”, olhou pro lado e sorriu de leve pra mostrar que estava brincando, mas de uma forma repentina, aquele lindo sorriso que estampava sua face, simplesmente desapareceu, ela ficou sem expressão e começou a perguntar: “Preciso de alguns dados pra colocar no seu prontuário, seu nome e endereço por favor.”
Naquele instante me senti meio perdido, como se estivesse sendo enganado, uma sensação igual quando você sabe que alguém vai mentir pra você sobre um fato que você já sabe toda a verdade. Porem, entrei no jogo dela, fingi estar calmo e disse: “Bom meu nome é Mark Jerry, meu endereço é Rua dos Palmares numero cinco” ela anotava os dados sem nenhuma expressão no rosto, então disse a ela tocando em seu braço para que parasse de escrever: “Ane, o que aconteceu com a garota soridente que entrou no quarto agora pouco? tem algo errado? Ou você costuma mudar de personalidade assim tão depressa?” Então ela abaixou a cabeça e começou a escrever no papel novamente, mas dessa vez ela rasgou aquele pedaço e dobrou, abriu minha mão com muita calma e colocou o pedaço de papel de uma forma leve e docê, em seguida empurrou com carinho em diração ao meu peito, ela me olhou nos olhos de forma tão penetrante que cheguei a sentir medo naquele instante. Seus olhos aparentavam estar cheios de lagrimas, como se estivesse chorando por dentro, com a voz mais doce do mundo ela me disse sussurando: “Espere até que eu saia para abrir.” Fiz o que ela me pediu, logo após ter saído eu abri o papel com cuidado onde estava escrito a seguinte frase: “Se da valor a sua vida, fuja, mas seja rápido. Acabei de perder a minha pra te salvar, prometa que vai voltar?”. Pensei com meus botões: “Deus, por que eu?” Então corri em direção a janela, ao colocar minha cabeça para fora, tive a melhor noticia do dia, “quarto andar,” pular me mataria, o único jeito era tentar fugir andando pelo parapeito, não parecia uma a melhor opção, mas naquele momento era a única, talvez a porta do quarto estivesse sendo vigiada. Naquele instante a adrenalina me subiu a cabeça, não fazia distinção do que era certo ou errado, “vou logo antes que chegue alguém,” já pisando na parte de fora da janela, por sorte o espaço era grande podia andar engatinhando tranquilamente, o problema era minha dor de cabeça e a tontura que não ajudavam muito, um pouco havia passado graças a adrenalina, a roupa que eu usava éra ligeiramente desconfortável, não havia nada por baixo, apenas o avental, eu estava literalmente “de vento em poupa.”   
Olhar para baixo estava fora de cogitação, comecei a andar em pé ainda, porém me senti fraco, então comecei a engatinhar, que sensação horrível, eu semi nu correndo risco extremo de ficar tonto e despencar do quarto andar. “Seja o que Deus quiser”, talvez a enfermeira esteja falando a verdade, “espero que não seja uma Pegadinha do Malandro.”
Cheguei até o próximo quarto, olhei pela janela para ver se havia mais alguém, porem apenas a maca vazia. Mais três quartos naquele andar e nada, todos vazio, o andar inteiro estava vazio, ao chagar na quina do prédio cheguei a conclusão que não poderia continuar andando, pois o parapeito não continuava daquele outro lado, descer um andar era impossível pra mim pois ainda sentia muita dor no corpo. Já estava quase desistindo e voltando pra dentro de um quartos quando vi no outro lado logo acima da minha cabeça uma escada de incêndio, estava recolhida, mas tinha uma corda que eu alcançaria facilmente. Puxei a corda da escada, a mesma fez um barulho imenso, “espero que ninguém ouça.” Ela tinha uns três estágios, mais ou menos um para cada andar, fui terminando de descer eles com a mão, a escada era meio velha, foi um pouco difícil e barulhento, mas consegui, as três partes estavam completamente esticadas até o chão, ela quase o tocava.  Tinha apenas um metro entre o final do parapeito e a escada, então, alcancei-a e logo, fui descendo. A escada balançava e rangia, estava bem enferrujada, era vermelha, mas a ferrugem tinha destruído boa parte da tinta. Continuei a descer, sempre olhando para os lados e para baixo, bem devagar pois meu pescoço ainda doía muito.
Em fim, cheguei ao chão, o hospital continuava deserto, apenas olhei para os lados e sai correndo como um louco, um louco de avental, corri em direção do estacionamento onde havia deixado meu carro na noite anterior, ao chegar tive outra boa noticia: “Droga, que burro eu sou, a chave do carro estava no bolso da minha calça, porém eu já não estava mais com ela,” ao olhar para os lados percebi vários carros no estacionamento, carros que já estavam lá a algum tempo, pois eu via poeira em cima dos mesmos, coisas que não vi na noite anterior, ou não percebi talvez por causa da escuridão. Meu coração batia de forma frenética por desespero e por raiva, pois, comecei a entender a gravidade da situação, algo estranho ocorria com aquele hospital, e agora eu fazia parte de tudo aquilo, pois estava em um “mato sem cachorro,” machucado, sem transporte e o pior sem roupa, não poderia ao menos pegar um ônibus. Um flash de memória me passou naquele instante: “Droga de novo, vim no hospital visitar meu irmão, se isso aconteceu comigo, onde estará ele agora?”. Não era hora pra pânico, eu não poderia pedir ajuda, não naquele estado, quem acreditaria num cara usando avental e com o pescoço enfaixado.
         Pegar um ônibus nesse estado seria tolice, então caminhei de forma sorrateira até os portões do hospital, onde não encontrei nenhum guarda ou porteiro, pessoas que estavam lá noite anterior, um dos guardas era o senhor Morris, muito amigo do meu irmão, inclusive, foi esse tal senhor Morris que me disse que meu irmão estava internado aqui, não via meu irmão Brendon à quase uma semana pois, ele estava tirando férias do serviço em uma cidadezinha próxima da nossa, meus pais estavam junto com ele, coincidencialmente nenhum dos telefones atendia, pensei que estivesse tudo bem e fosse apenas um problema de operadora,  eles me disseram que só voltariam no fim do mês, porém, quando esse senhor Morris me disse que apenas meu irmão estava no hospital fiquei desesperado, mas ele disse que não era coisa grave, disse que tinha apenas quebrado a perna, ficou internado por causa do ligamento que havia se rompido. Esperei ligações e nada, o mínimo que eu poderia fazer era esperar o horário de visitas e ir visitá-lo. Comecei a ligar os fatos, essa historia toda estava com um cheiro muito estranho. Um hospital vazio, pessoas que não estavam realmente doentes, um cachorro que até agora acho que nunca existiu, uma enfermeira morta e outra que talvez ira morrer. Comecei a pensar se realmente meu irmão estaria lá, e se estivesse, eu deveria voltar, mas o que eu poderia fazer, naquele estado, eu não serviria pra muita coisa.
Comecei a observar a rua por de traz de uma pequena moita, sempre olhando para os lados e para traz, já passava do meio dia, uns cinco carros estacionados na rua, o movimento estava normal, poucos carros passando, cerca de dois ou três por minuto. Do outro lado da rua vi um velho, com o olhar simpático, ele estava vendendo caldo-de-cana, “Garapa,” estava sozinho, pensei comigo “me ajude tiozinho,” não tive outra escolha, cheguei desesperado gritando pra ele: “Senhor, me ajude, por favor, uns loucos levaram minhas roupas, acabei de ser assaltado.” No começo ele me observou dos pés a cabeça com uma certa desconfiança, então ele franziu a sobrancelha e me disse: “Pare de mentir filho, acabei de ver que você fugiu do hospital.”
Apesar de desconfiado, o velho continuou com seu olhar simpático, eu fiquei sem jeito pois acabara de mentir pra única pessoa que talvez pudesse me ajudar. Então ele olhou pra mim e disse: “Sorte sua que conseguiu fugir filho, tem algo errado com esse hospital nos últimos dias.” Aquilo me tranqüilizou de uma forma incrível, logo perguntei a ele: “O Que o senhor tem visto nesses últimos dias?” Então ele relaxou a sobrancelha franzida e começou a contar: “Meu nome é Evaristo Polidóro, sou detetive particular, estou trabalhando aqui ha uma semana, para uma senhora que teve a filha desaparecida, e o ultimo local que a garota foi vista foi nas redondezas desse hospital, ela veio visitar uma amiga doente e desapareceu. Mas esse não foi o único casso, há mais ou menos uns trinta dias, uma matéria do Jornal Geral, dizia que alguns corpos enviados aqui para autopsia, nunca foram encontrados, simplesmente desapareceram antes. Os diretores do hospital se defenderam dizendo que esses corpos nunca chegaram aqui, que o veiculo que os transportava havia caído em um lago profundo, porém o caso foi abafado, nunca foi feito busca nesse tal “lago.” Sendo que aqui na região o lago mais próximo esta a uns trezentos quilômetros, os corpos vinham de outra cidade, mas o tal lago não estava na rota do caminhão. Bom, pode ser apenas uma consciência, ou podem ser fatos ligados por alguma raiz...”
Mal deixei Evaristo terminar de falar e comecei a dizer gaguejando: “Troco informações por uma roupa limpa, o que acha?” Ele sorriu e disse: “Garoto, se realmente puder me ajudar, serei muito grato. Por sorte, trouxe uma roupa extra para trocar no fim do dia, e meu carro esta logo ali.” A principio fiquei meio com receio de acompanhá-lo até o carro, mas, realmente se ele quisesse me matar já teria o feito, então o segui com cautela e observando seus movimentos cuidadosamente ate chegarmos ao seu carro.
Era uma Mini-Van vermelha, nova por sinal, fiz uma piadinha sobre o carro: “E seu emprego de detetive tem lhe rendido bons frutos não.” Ele apenas deu uma risadinha e pegou a roupa no porta luvas, estava embrulhada em um saco plástico pequeno, não fiz cerimônia, apenas olhei para os lados para me certificar que não vinha ninguém e vesti as roupas ali mesmo, deixei o avental do hospital dentro do saco, e coloquei-os em uma lixeira próxima do carro.
Encostei-me no carro e comecei a dizer: “Senhor Evaristo, meu nome é Mark Jerry, vim a esse hospital visitar meu irmão, que talvez nem esteja ai, acho que cai numa cilada. Na noite de ontem alguem acertou meu pescoço com um objeto cortante, vi uma enfermeira morta no chão do hospital, desmaiei, acordei numa maca todo enfaixado, uma enfermeira me mandou fugir, eu sai pela janela, quase morri pela segunda vez, desci até o chão e encontrei o senhor. Bom, foi isso o que ocorreu até agora.” Omiti o fato do animal que me atacou, pois talvez ele não aceditasse. O senhor Evaristo ficou um tanto pasmo com minha historia, pela sua expresão facial, ele aparentava ter acreditado, em tudo que eu havia contado, porem ele me disse com calmas palavras: “Você tem certeza do acabou de me falar rapaz? Haviam mais pessoas no Hospital?” Eu disse: “Sim, digo com toda a razão que me resta, foi isso tudo que aconteceu comigo, queria que fosse apenas um pesadelo, mas isso aconteceu de verdade. Quanto a ter mais pessoas no Hospital, eu vi apenas uma enfermeira morta, uma equipe de uns quantro medicos que me socorreram quando desmaiei, e a enfermeira que me atendeu pela manhã, todos os quartos pelos quais passei estavam vazios.” Ele cossou o queixo e me disse: “Tudo bem, eu acretido em você, porem preciso de mais provas para poder conseguir um mandato, então o que posso vazer por você agora? Quer uma carona?” Meus olhos brilharam naquele momento e eu disse: “Sim!!!!” Como uma crinça que acaba de ganhar um Skate ou um Patins de aniversário.
Entrei no carro, expliquei ao senhor Evaristo como chegar até minha casa, não demoramos nem trinta minutos, ao chegarmos perguntei se ele gostaria de tomar uma aguá ou um café, ele disse que não podia pois precissava prencher alguns formularios para ver se conseguia o mandato o mais rapido possivel. Ele me deu um cartão com nome e telefone me dizendo: “Filho, se souber de mais alguma coisa que possa ajudar me ligue.” Eu disse: “Sim claro, pode contar comigo!”
Ele se foi, segui em direção ao meu quarto, apesar da fome, nem me preocupei em comer, estava exausto. Peguei no sono novamente, mas dessa vez estava na minha cama, éra como se aquele imensso pessadelo houvesse acabado.

Na verdade, o pessadelo estaria apenas começando...        
  


Nenhum comentário:

Postar um comentário